COMPREENDENDO A DEPRESSÃO
- Vinicius Carlos

- 14 de abr.
- 8 min de leitura

O QUE É DEPRESÃO
A depressão é um transtorno mental que pode ter um impacto significativo em diversas áreas da vida de quem foi acometido com esta patologia. É de suma importância que partamos do principio que depressão não é frescura, não é falta de força de vontade, não é comportamento de quem quer chamar atenção, não é preguiça, não é falta de Deus, entre outras falácias que são atribuídas a este transtorno. Mas temos que partir do pressuposto de que depressão é um transtorno que surge por fatores diversos, e como qualquer patologia tem às suas peculiaridades que a caracterizam e podem agravar, piorar, caso não haja o tratamento adequado. Enxergar a depressão por esta perspectiva norteará a nossa forma de lidar com este assunto.
Estudos recentes mostram evidências cientificas de que há alterações de substâncias neuroquímicas no cérebro de uma pessoa que está com depressão. Ocorrem disfunções nos níveis de dopamina, serotonina e noradrenalina. Estes neurotransmissores são responsáveis pela sensação de prazer, alegria, felicidade, bem-estar, planejamentos de ações futuras, tomada de iniciativa, entre outros comportamentos que são essenciais para que o ser humano tenha uma boa qualidade de vida.
O transtorno depressivo é classificado em 3 graus, são eles: leve, moderado e grave. O que determina o grau em que a depressão se encontra é a quantidade de sintomas que o individuo apresenta juntamente com o tempo que os sintomas se manifestaram.
Aproximadamente 311 milhões de pessoas ao redor do mundo têm depressão. No Brasil segundo o Ministério da Saúde em torno de 12 milhões de pessoas têm este diagnóstico. Há uma predominância de mulheres em relação a homens que ocorre por questões hormonais e também pelo estilo de vida vivido por muitas mulheres atualmente. Muitas mulheres têm jornada dupla ou até tripla de trabalho, tendo que trabalhar secularmente, cuidar de casa, dos filhos, fazer os serviços domésticos aos finais de semana, entre outras atividades. Tal estilo de vida caracterizada pelo excesso de demandas tem levado muitas mulheres a ficarem mais estressadas, ansiosas e deprimidas.
TRISTEZA MOMENTÃNEA E TRISTEZA DA DEPRESSÃO
Nos dias atuais tem se tornado comum as pessoas ficarem tristes por diferentes motivos e proferirem a seguinte frase: hoje estou deprimido. Mas para a ciência há diferenças entre tristeza transitória e tristeza da depressão.
As emoções fazem parte da realidade de qualquer ser humano. A emoção é caracterizada por um conjunto de reações internas e externas do organismo perante a um estímulo. Alegria, tristeza, raiva, medo nojo e ansiedade são emoções comuns a todos os seres humanos. A tristeza como emoção comum a raça humana surge por motivos diversos, mas logo passa dentro de algumas horas ou até alguns dias.
Quando falamos sobre a tristeza da depressão parece que a mesma nunca terá fim, pois a intensidade e durabilidade são maiores do que o normal e pode aumentar com o passar dos dias. Normalmente a tristeza da depressão vem acompanhada de outros sintomas como a anedonia que é a perda do prazer em atividades que no passado eram prazerosas, transtorno do sono, transtorno alimentar, diminuição da libido, fadiga, irritabilidade e etc.
Por muitas vezes na tentativa de ajudar pessoas que estão com a tristeza atípica proferimos as seguintes frases: você tem que ser forte, para de moleza, levanta a cabeça, há pessoas que estão em uma situação pior do que a sua, você só está assim porque você quer, a sua melhora só depende de você, isso é falta de Deus. Estas frases quando ditas para alguém que está com a tristeza da depressão tende a deixar a pessoa em uma situação pior do que ela já se encontra. Pois o individuo que está sofrendo com esta situação pode se achar culpado pelo que está vivendo, pois o sentimento de culpa tende a aparecer em quadros depressivos.
Ao invés de proferir estas frases que podem potencializar o sofrimento da pessoa, pode-se dizer para quem está sofrendo: eu percebo que você não está bem há alguma coisa que posso fazer para lhe ajudar? Eu noto que você tem tido uma baixa nos estudos, no trabalho, está mais distante dos amigos. Eu estou à disposição para lhe ajudar no que puder. O que você acha de buscarmos ajuda profissional? Ao dizer estas frases você acolhe o individuo e apresenta possibilidades que podem ajudá-lo a se sentir melhor.
CAUSAS DA DEPRESSÃO
As causas que geram depressão são multifatorias, podem ser fatores genéticos, sociais, biológicos, psicológicos e espirituais.
Para a psicologia a depressão normalmente está relacionada com experiências de perdas significativas no decorrer da vida e mediante a tais perdas o individuo não consegue reagir, desencadeando um quadro depressivo, principalmente em pessoas pré-dispostas e sem rede de apoio.
Doenças podem limitar o repertório social da pessoa, diminuir a sua expectativa de vida, restringir as suas atividades do cotidiano, estas implicações podem desenvolver uma tristeza mais intensa e culminar em um quadro depressivo.
Aspectos genéticos também podem desencadear depressão, conforme consta em algumas pesquisas, pessoas que tem parentes de primeiro grau com diagnóstico de depressão tem mais chances de ser acometido com este transtorno do que uma pessoa que não tem familiares de primeiro grau nesta condição.
Instabilidade econômica, constante sensação de insegurança, falta de reconhecimento social, perda de bens materiais, perda do emprego, atrelado a outros fatores podem levar a depressão.
Ressalto que mesmo existindo um fator que desencadeou a depressão, posteriormente há a possibilidade de ocorrer também um comprometimento em outras áreas, se o fator que desencadeou esta patologia foi preponderantemente uma questão emocional não elaborada, pode haver também um comprometimento biológico, neuroquímico, social e espiritual, ou seja, outras esferas da vida humano podem ser afetadas.
SINTOMAS DA DEPRESSÃO
Os sintomas da depressão são variados, sendo classificados como sintomas fundamentais e sintomas acessórios.
Os Critérios indicados pelo CID 10 Classificação Internacional de Doenças, para o diagnóstico da depressão são:
Sintomas fundamentais:
humor deprimido.
perda de interesse.
fatigabilidade.
Sintomas acessórios:
redução da concentração e da atenção.
diminuição da auto-estima e da autoconfiança.
ideias de culpa e inutilidade.
visões desoladas e pessimistas do futuro.
perturbação do sono.
diminuição ou aumento do apetite.
automutilação.
ideias de suicídio.
perda do prazer em atividades que eram prazerosas.
A combinação entre sintomas fundamentais e acessórios definirá o grau da depressão, se é leve, moderada ou grave.
Depressão leve: 2 sintomas fundamentais e 2 acessórios.
Depressão moderada: 2 sintomas fundamentais e 3 ou 4 acessórios.
Depressão grave: 3 sintomas fundamentais e 4 ou mais acessórios.
Os manuais utilizados pelos profissionais da área da saúde para padronizar os transtornos mentais, dizem que estes sintomas devem estar presentes por duas semanas ou mais para que seja caracterizado de fato um quadro depressivo.
FORMAS DE DEPRESSÃO
Falamos sobre depressão de forma genérica, mas é importante saber que há diversas formas de depressão, apresentarei algumas delas. A classificação pode ser feita de acordo com a sua causa e duração, assim como os sintomas que o paciente apresenta.
Depressão pós-parto: surge após o parto e gera sintomas como tristeza, irritabilidade ou rejeição ao bebê.
Depressão maior: Surge quando o individuo apresenta cinco ou mais sintomas da doença durante mais de duas semanas, o que compromete a sua atividade diária.
Depressão reativa: surge após um acontecimento estressante como, por exemplo, morte de um familiar, divórcio, perda de emprego, para o qual o individuo não conseguiu reagir.
Distimia: a distimia é uma forma crônica de depressão, porém menos grave do que a forma mais conhecida da doença. A pessoa apresenta vários sintomas típicos de depressão durante mais de dois anos, sendo o principal a tristeza constante. O individuo pode perder o interesse nas atividades diárias normais sentir-se sem esperança, ter baixa produtividade e um sentimento geral de inadequação, além de ser considerada uma pessoa excessivamente critica que reclama constantemente e é incapaz de divertir-se.
Depressão atípica: a depressão atípica é uma forma de depressão caracterizada por sintomas contrários aos da depressão normal, tendo a paciente maior necessidade de dormir, comer ou ter contato intimo.
Transtorno afetivo sazonal ou depressão de inverno – o tas ou depressão de inverno ocorre quando há mudanças de estação devido à falta de sol, tendo como sintomas fadiga, tendência a comer muito doce e a sonolência. Este tipo de depressão é mais forte em países onde o inverno é mais rigoroso e os dias mais escuros e caracteriza-se por alterações de humor e diminuição de energia. É mais freqüente em mulheres do que em homens, estatísticas mostram que para cada homem afetado, existem 4 mulheres.
Depressão psicótica: na depressão psicótica, o individuo, além de apresentar sintomas característicos de depressão, tem também delírios e alucinações.
COMO AJUDAR ALGUÉM QUE ESTÁ COM DEPRESSÃO
No processo de ajuda a pessoas que estão com depressão alguns aspectos tem que ser levados em consideração, são eles, escuta isenta de punição, empatia, tempo disponível e ambiente neutro.
Escuta isenta de punição diz respeito ao ato de oferecer uma escuta a quem está sofrendo sem julgamentos, sem expressões faciais que demonstrem espanto perante o que está sendo dito, para que a pessoa se sinta a vontade para expressar as suas demandas.
Empatia é sentir com o outro, demonstrar que você compreende e imagina o quanto a pessoa esteja sofrendo na condição em que se encontra. Dar sinais de positivos com a cabeça, fazer perguntas relacionadas ao que está sendo dito, destinar atenção exclusiva a pessoa, pode ajudar o outro a entender que você realmente está interessado em dar o suporte que esta pessoa necessita.
Tempo disponível é essencial para que a ajuda oferecida seja eficaz. Através da escuta isenta de punição e da empatia o individuo tende a se sentir cada vez mais estimulado a compartilhar o que está vivenciando. Neste processo o ouvinte precisará de disponibilidade de tempo para ouvir tudo que o outro tem a compartilhar.
Escolher um ambiente neutro também será indispensável para o sucesso da ajuda. Não é recomendável oferecer esta escuta em lugares com muita circulação de pessoas. Pode ser que os assuntos que a pessoa trará, são íntimos, talvez alguns dos temas abordados nunca foram falados com ninguém anteriormente. Um lugar tumultuado pode inibir e atrapalhar o processo. O ideal é buscar um lugar neutro com pouca circulação para que a pessoa não sofra interferências ao repartir as suas demandas.
O TRATAMENTO PARA A DEPRESSÃO
O tratamento para a depressão abrange psicoterapia, tratamento medicamentoso, mudança no estilo de vida, apoio familiar e apoio social,
Através da psicoterapia, realizada por um psicólogo, torna-se possível descobrir as variáveis que culminaram na depressão. A depressão também pode causar distorção da percepção da realidade, a psicoterapia pode ajudar o paciente a ter uma percepção adequada da realidade que vive.
O tratamento medicamentoso também pode ser essencial dependendo do grau em que a doença de encontra. Normalmente a depressão leve pode ser tratada apenas com psicoterapia, mas quando ela evolui para os estágios moderado e grave também se fará necessário o tratamento medicamentoso. Os medicamentos auxiliarão principalmente a estabilizar os sintomas.
Mudar o estilo de vida aderindo a prática de atividade física, alimentação balanceada, programação diária, momentos de lazer, sono de qualidade, autoconhecimento, são essenciais para o tratamento deste transtorno mental.
Na maior parte das vezes que atendo pacientes com depressão, convido a família para participar de um atendimento com a finalidade de realizar o processo de psicoeducação sobre o assunto. Pois o apoio familiar é indispensável no tratamento, famílias que acolhem os seus entes deprimidos potencializam as suas chances de melhora.
O apoio social pode abranger amigos, pessoas próximas, o envolvimento com as atividades da igreja que a pessoa frequenta, quanto mais pessoas tiverem envolvidas no propósito de ajudar a pessoa que está sofrendo, maiores são as chances de cura deste sujeito.



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